iNOVATECH 3ª Edição: Inovação na Agricultura Familiar é principal foco de evento da FAV-UnB de 26 a 28 de setembro

A Faculdade de Agronomia e Veterinária (FAV) em parceria com o Centro de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico realiza esta semana o iNOVATECH – Evento de Inovação da Universidade de Brasília – 3ª Edição. O evento ocorrerá nos dias 26, 27 e 28, nos anfiteatros 9 e 10 do ICC Sul. A abertura será amanhã (26), às 17 horas, e contará com a participação da Coordenadora do Curso de Gestão de Agronegócios da Faculdade de Agronomia e Veterinária da UnB, Mireya Valencia Perafán, Diretora-Presidente da Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (RETE).

O iNOVATECH tem a finalidade de promover um ambiente universitário formador de profissionais mais inovadores, contribuindo com o desenvolvimento de avanços tecnológicos que se fazem necessários para o País. Dessa forma, o evento se propõe a colocar os participantes em contato com metodologias e experiências vinculadas à inovação vindas de dentro e fora da universidade por meio de palestras, oficinas, painéis, minicursos e mesas redondas, além de expor os trabalhos de alunos ou professores que já estão contribuindo com a universidade neste quesito.

O intuito é fazer com que os participantes de fato consigam aprender não só a teoria, mas a prática da inovação nos diferentes ramos estudados, partindo desde o processo de ideação até o momento de concretização. A programação do iNOVATECH FAV tem como foco aprofundar as discussões sobre inovação na agricultura familiar. Nesse sentido, a programação irá tratar de temas como a democratização da inovação, a descentralização do conhecimento e a inovação nas comunidades e energias renováveis na propriedade rural. O evento é gratuito e haverá emissão de certificado. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail comunicação@cdt.unb.br.

A seguir, entrevista concedida pelo professor Iván G. Peyré Tartaruga, integrante do painel “O Desafio de Democratizar a Inovação: um olhar sobre os múltiplos atores sociais”, que será realizado no começo da manhã da quinta-feira. Membro da Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (RETE), Iván é Pesquisador da Fundação de Economia e Estatística (FEE), Professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT-RS) e Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

RETE – Qual a importância de termos eventos sobre a discussão da inovação voltada à agricultura familiar?

Iván – Atualmente, a temática da inovação é importante para os mais diversos campos da sociedade, principalmente, aqueles relacionados às atividades produtivas. Os países e regiões mais desenvolvidos possuem sistemas de inovação muito bem estruturados e em constante melhoramento, reunindo instituições de pesquisa, universidades e empresas, dos setores público e privado, com fortes vínculos entre eles. Por isso as nações em desenvolvimento, que almejam um lugar de destaque no cenário internacional, buscam estabelecer seus sistemas de inovação adaptados as respectivas realidades econômicas e sociais. Nesse contexto, é evidente que a discussão da inovação é essencial para a agricultura familiar no Brasil e, igualmente, os eventos que discutam tal assunto. No caso específico da agricultura familiar alguns aspectos relacionados às mudanças tecnológicas no mundo, provavelmente, oferecem oportunidades interessantes. Uma dessas oportunidades diz respeito ao que se convencionou chamar de economia “verde” ou “limpa”. Efetivamente, as questões ambientais (proteção ambiental, controle da poluição e do desperdício, energias renováveis, tecnologias eficientes e ecológicas, etc.) já estão na pauta econômica mundial e nos próximos anos serão elementos imprescindíveis do comércio internacional. O que inclui a produção sustentável (ambientalmente) de alimentos, levando-se em conta o crescimento da demanda internacional de alimentos nos próximos anos. E é aqui que vejo uma grande oportunidade para a agricultura brasileira se conseguirmos vincular o aporte das instituições de pesquisa (como, por exemplo, a EMBRAPA) – dimensão tecnológica – com os conhecimentos tradicionais – dimensão não tecnológico – dos diferentes atores sociais das áreas rurais como camponeses, indígenas, quilombolas, entre outros. Assim, eventos que tratem desses temas são muito bem-vindos e necessários, principalmente, em um período histórico caracterizado pela economia do conhecimento ou da aprendizagem, conhecimentos esses oriundos dos mais diferentes atores.

RETE – Qual é o principal desafio a ser vencido para democratizar a inovação no que se refere à agricultura familiar?

Iván – Creio que são dois os principais desafios para democratizar a inovação em termos gerais e para a agricultura familiar em especial. O primeiro, comentado anteriormente, é relativo a valorização dos conhecimentos tradicionais existentes, no Brasil, nos territórios da agricultura familiar, nas terras indígenas ou quilombolas. Entretanto, a esses saberes oriundos das práticas sociais das diversas comunidades deve-se somar o conhecimento científico e tecnológico das organizações científicas e tecnológicas, como institutos de pesquisa e universidades. Essa união – da tradição com a ciência/tecnologia – é fundamental para a construção de novas técnicas e de novos mercados, sobretudo, no momento atual mundial marcado pela hipersegmentação dos mercados. Desse modo, elimina-se um dos grandes mitos relacionados à inovação, o mito da oposição entre inovação e tradição, a história das tecnologias comprova que a maioria das novidades tecnológicas surgiu a partir de tecnologias pretéritas que haviam perdido sua função, mas que têm sua utilidade reconhecida em condições históricas e técnicas específicas. Não é sem razão que algumas das nações mais inovadoras, em termos tecnológicos, são marcadamente tradicionais, como o Japão ou o Reino Unido. O segundo desafio, fortemente relacionado ao anterior, é o reconhecimento do papel do estado nos processos de inovação. Essa discussão baseia-se na constatação de que os países mais desenvolvidos tecnológica e economicamente tiveram esse progresso com a participação direta de instituições estatais, cuja o principal exemplo são os Estados Unidos. Isso não é diferente para as inovações no âmbito da agricultura familiar. Como dito antes, o aproveitamento das possibilidades de inovação a partir dos conhecimentos tradicionais depende do apoio de instituições de pesquisa e de ensino (públicas e privadas) e financeiro proveniente, especialmente, de órgãos estatais.

RETE – De que forma Redes de Gestão e Pesquisa como a RETE podem contribuir com esse processo?

Iván – Desde o final da 2ª Guerra Mundial os processos de inovação tecnológica mais exitosos têm se caracterizado por atividades realizadas em colaboração entre pessoas e instituições – modo de executar projetos de pesquisa e desenvolvimento com alto teor científico denominado de Big Science. E nas últimas décadas tal modelo tem se manifestado através de redes de pesquisa cada vez mais complexas, reunindo pesquisadores de diferentes instituições e campos disciplinares com o objetivo de enfrentar problemas científicos e tecnológicos. No caso específico das inovações na agricultura familiar, parece igualmente evidente a relevância de redes de pesquisa que se proponham a debater e a buscar alternativas para os problemas dos espaços rurais com base em diferentes áreas das ciências sociais e ambientais. Nesse sentido, a RETE cumpre um papel importante na promoção da pesquisa e da gestão para o desenvolvimento territorial no Brasil. Essa Rede pode fornecer conhecimentos muito interessantes sobre a realidade do país que poderão ser o substrato para implementação de inovações sociais e/ou institucionais para o desenvolvimento de diversas regiões.

Texto: Ana Cristina Rosa

 

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