RETE entrevista Ricélia Marinho: “As mudanças climáticas precisam ser debatidas com mais frequência”

No início de dezembro, ocorreu o Seminário “Aquecimento Global, Mudanças Climáticas, Crise Hídrica: o que eu tenho a ver com isso”, na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG-CCTA), na Paraíba. A professora Ricélia Marinho, integrante da Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (RETE) e membro do Grupo de Pesquisa e Estudo Sura/CNPq, foi palestrante no evento e nos apresenta, na entrevista a seguir, uma síntese do que foi tratado no Seminário.

RETE – Qual a principal conclusão do Seminário?

Ricélia – Seminário possibilitou a seguinte conclusão: as mudanças climáticas como resultante de processos diversos, mas também da ação antrópica, precisam ser debatidas com mais frequência de modo a correlacioná-las com os fatores que nutrem a desigualdade social e a vulnerabilidade de parcela significativa da sociedade.

RETE – Quais são os maiores desafios a serem vencidos?

Ricélia – Dentre os maiores desafios podemos destacar o resgate de valores e ações fundamentais para assegurar o Bem Viver e a preservação da natureza para garantir a permanência de nossa espécie neste Planeta.

RETE – O que os dados científicos mostram em relação às mudanças climáticas e à preservação do meio ambiente?

Ricélia – Os dados científicos demonstram que precisamos ser mais sensíveis e estarmos em alerta para perceber as mudanças climáticas e os sinais latentes que a natureza apresenta como prenúncio da necessidade de modificações das ações humanas. A exemplo, no Brasil, todas as regiões demonstram nítidas alterações ambientais com fenômenos que se repetem com intensidade, épocas diferente e impactos severos nos Recursos Hídricos, tais quais: as perdas nos ecossistemas e a biodiversidade em todos os biomas, o desmatamento, as queimadas, a aridização, os eventos extremos de chuvas e secas, as altas taxas de evaporação, os veranicos com ondas de calor que possivelmente afetam a saúde, a agricultura e a geração de hidro energia, dentre outros. Em especial aqui no Nordeste somam-se ainda dois elementos: a migração do campo para a cidade dentro de uma nova configuração que pode intitular como “os refugiados do clima” e, ainda o processo de implantação de modelos centralizados de energia mais limpa (Parques Eólicos e Usinas Solares). Em especial os Parques Eólicos e as Usinas Solares que carregam a bandeira de ser uma geração e distribuição de energia pautada nos princípios da sustentabilidade estão chegando às áreas interioranas do Nordeste onde se encontra pessoas e terras vulneráveis (social, política e economicamente falando) e, está promovendo alterações incalculáveis, inclusive alterando o mapa mental dos moradores destas áreas, algo que realmente pode ser ajustado, caso haja um empoderamento da comunidade e dos representantes políticos, haja vista que se trata de empresas transnacionais com experiências europeias que realmente constroem em grandes proporções, mas que não retiram uma árvore se quer, logo são empresas que conhecem a tecnologia necessária para serem realmente sustentáveis suas práticas. Outrossim, estas empresas podem contribuir inclusive com o processo de democratização e descentralização da produção de energia mais limpa, haja vista que elas precisam efetivar um processo de compensação socioambiental e, com isso contribuir com o desenvolvimento territorial e regional visando a promoção de emprego e renda a longo prazo, contribuindo com o surgimentos de cadeias produtivas que podem passar de geração em geração. No meu ponto de vista, falta uma abertura de diálogo para que as empresas compreendam que não somos contra este processo de implantação de energia eólica ou solar, mas realmente todos precisam pensar e agir para que a sustentabilidade seja o alicerce para a construção de uma nova sociedade, mais justa, mais inclusiva e, que respeite as pessoas e a natureza.

RETE – Em relação aos ODS, em que ponto o Brasil se encontra no cumprimento das metas?

Ricélia – Infelizmente, não podemos comemorar como gostaríamos sobre os cumprimentos das metas dos ODS no Brasil, mediante a propositura de um projeto de governo que representa as bases do Estado-Nação, que assumem políticas de minimização do Estado em detrimento de maiores possibilidades de ação do Mercado, fato decisivo para ampliar a desigualdade social e a retirada desmedida dos elementos da natureza e, consequentemente acentua os riscos aos eventos extremos (seca/inundação, a exemplo do sistema natural do elemento água, dentre outros).

RETE – Concretamente, quais são os maiores desafios a serem vencidos por nós, brasileiros?

Ricélia – Posso citar alguns desafios. Primeiro, o empoderamento das pessoas em relação aos temas, mas também aos canais que precisam ser construídos para garantir e efetivar a participação social. Segundo, as pessoas que ocupam postos de decisões, principalmente àqueles responsáveis pela efetivação das políticas públicas precisam acompanhar os debates e compreender a necessidade urgente de mudanças das práticas cotidianas, principalmente aquelas que zelam pela fiscalização e acompanhamento de empreendimentos que podem causar alterações e intensificar a crise hídrica e, as inseguranças alimentares e energéticas. Terceiro todos os agentes econômicos precisam compreender que seus projetos só serão sustentáveis se respeitar as pessoas e a natureza. E, as pessoas, por conseguinte, que se houver o equilíbrio entre o social, ambiental e o político-institucional, haverá um ganho econômico.

Assista, no link a seguir, entrevista concedida pela professora durante o Seminário. https://youtu.be/C48XkYedkIk

Texto: Ana Cristina Rosa

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